segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Espelho meu, espelho meu, diz-me quem sou eu?



Artigo publicado na Revista Saudável (Edição: Outubro/2009)
Autoria: Hugo Santos, Psicoterapeuta - Oficina de Psicologia

Ao amor e uma cabana juntámos a inteligência relacional. Na sociedade moderna as competências treinam-se, mesmo aquelas relacionadas com a arte de ser feliz com alguém. Nos afectos, como é que eu sou? Como é que eu gostaria de ser?

Os tempos mudam e com o cronómetro das gerações o nosso olhar e a forma de viver vão igualmente mudando. O amor também se transforma e hoje em dia as relações reflectem diferentes formas de expressar e de trocar afectos.

Sem entrar num discurso modernista ou num tom saudosista sobre os “velhos tempos”, parto do bom princípio que a experiência e os novos conhecimentos permitem-nos evoluir na forma como amamos. Aliar a ciência à magia do amor poderá ser uma boa fórmula para a felicidade.

Deste modo, ao amor e uma cabana adiciono a inteligência relacional, como um suplemento vitamínico que poderá revitalizar conscientemente o campo dos afectos.
Ao longo da nossa linha da vida vamos tendo diversas oportunidades e desafios para colocar à prova e para desenvolver a nossa capacidade para criar relações.
Esta competência para nos ligarmos e interagirmos com os outros espelha-se na forma como reconhecemos e compreendemos os sentimentos, e no modo como aplicamos esta informação no quotidiano dos afectos.

O interessante é termos a possibilidade de ir treinando ao longo da vida a nossa inteligência relacional, podendo, assim, mudar a forma como amamos e como nos relacionamos

Perante isto, desafio-vos a olharem para a vossa inteligência relacional, num convite a espreitar para dentro, através do exercício “Espelho meu, espelho meu, diz-me quem sou eu?”.
O exercício é simples e a minha aspiração é traduzir para uma linguagem prática e próxima do senso comum, estes saberes da psicologia.

Comecemos a viagem…

Cada um de nós tem uma imagem de si próprio ao nível dos afectos e das relações, que se espelha nos comportamentos e nas diversas situações do dia-a-dia.
Se abrirmos a base de dados deste “espelho mágico” e fizermos uma pesquisa sobre o que podemos encontrar, teremos uma imensa lista de características individuais, como por exemplo: “Sou bonito”, “Sou Social”, “Sou Simpático”, “Dou mais aos outros do que recebo”, “Tenho medo da rejeição”, “Acho sempre que a culpa é minha”, “Não digo o que penso”, “Sou desconfiado”, “Detesto quando não me ligam”, “Importo-me muito com o que os outros pensam”, entre outros.

Vamos utilizar algumas dessas características.

Pegue, então, numa folha de papel e numa caneta, e escreva no cabeçalho o nome deste exercício: “Espelho meu, espelho meu, diz-me como sou eu”. Não se preocupe porque não vamos entrar em nenhum campo esotérico. Trata-se apenas de uma simples instrução para começar o exercício.

Agora, desenhe por baixo quatro linhas horizontais, com cerca de cinco dedos de comprimento (a bitola é a palma da mão fechada). Deixe algum espaço entre as linhas. Na extremidade de cada uma, escreva em cantos opostos as seguintes características: Pessimista – Optimista, Inseguro – Confiante, Dependente – Independente e Descomplicado – Complicado.

Acabou de criar uma simples escala de avaliação da sua imagem.
Vamos agora olhar para a primeira linha e para as características: Pessimista - Optimista. A linha representa uma escala entre duas características opostas (no centro está o “meio pessimista - meio optimista”, à esquerda está o extremo do pessimismo e à direita o extremo do optimismo).

Pergunte-se: “Como é que eu sou?”, no campo dos afectos. Sem pensar muito (para a resposta ser mais emocional do que racional), coloque um “x” sobre a linha no local que achar que o caracteriza mais.

Coloque agora uma segunda questão: “Como é que eu gostaria de ser?” e novamente, de forma espontânea, coloque um “x” sobre a linha, mas desta vez com um círculo à volta.
Poderá fazer o mesmo para as restantes características (Inseguro – Confiante, Dependente – Independente e Descomplicado – Complicado).

Dou-lhe algumas hipóteses explicativas dos seus resultados: o espaço entre a primeira e a segunda resposta poderá permitir avaliar a distância entre o seu real e o seu ideal. Quanto maior a distância maior poderá ser a insatisfação ou necessidade de mudança. Por outro lado, se a imagem real e a imagem ideal estiverem sempre “coladinhos”, isto é, muito juntos, poderá ser um mecanismo de defesa que não lhe permite idealizar muito.

A regra é simples: não há respostas certas, nem erradas, nem explicações únicas. Neste exercício cada um avalia-se da forma como lhe fizer mais sentido.

Este “espelho mágico” agora é seu. Poderá fazer o exercício quando quiser, nos dias que quiser, e diversificar as características.
Tem agora uma ferramenta simples para avaliar a sua inteligência emocional, ao nível da auto-imagem (imagem de si próprio). Um importante passo para a mudança e para a transformação é a tomada de consciência de como é que somos e de como é que gostaríamos de ser. A bola está agora do seu lado.
Se fizer a pergunta “espelho meu, espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?”, eu próprio lhe darei a resposta: “não há”. Porquê? Agora esta resposta é só sua.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Descomplicar os Afectos, no Verão: O tempo de ser infiel à rotina


Algarve Destak - Julho/ Agosto 2009
Entrevista
Jornalista Patrícia Susano Ferreira - Destak

Quais os efeitos das férias e do Verão na vida social e amorosa dos portugueses?
É sobretudo uma oportunidade de refrescar as relações, com uma boa onda de afectos. Nesta altura, o tiquetaque do relógio marca o contratempo dos momentos aguardados. Durante longos meses guardámos na caixinha dos nossos projectos uma série de coisas para fazer nas férias (ou simplesmente para não fazer). E eis chegado o momento em que reconquistamos um precioso bem da modernidade: o tempo.

Temos mais tempo para os outros?
Por um lado, é sinónimo de descanso e de libertação do stress acumulado, e por outro de activação da socialização e dos afectos. Sentimos o calor e as emoções à flor da pele e os nossos sentidos despertam para o mundo lá fora. O nosso espaço de existência alarga as suas fronteiras e aumentam significativamente as nossas interacções, a proximidade com os outros, as trocas, o contacto. Temos a oportunidade e a vontade de estar mais com os amigos, de viver o amor, de dar asas à paixão, de ter novas descobertas e novas experiências. O desafio é a forma como traduzimos para a prática esta oportunidade de mergulhar neste mar de afectos e de relações.

Os portugueses sentem-se demasiado presos às 'paixões de Verão' ou conseguem esquecer rápido?
A paixão e o Verão formam um casal perfeito. Quando se juntam nasce o romance. As histórias de paixão escritas na areia da praia podem ser apagadas pelas ondas, ficando a saudade e uma bonita recordação, ou podem levar ao desejo de cimentar algo mais. Esta incerteza faz parte do encanto.

Este período longe do trabalho e das rotinas pode ajudar a consolidar relacionamentos já existentes?
O Verão dá-nos a oportunidade de viver e de explorar os afectos.
Nas relações esta poderá ser a oportunidade desejada de estar a dois, de ter mais tempo para namorar, para fazer grandes projectos ou pequenos desafios, de nos reaproximarmos e de fortalecer a ligação. Não interessa o local ou o quê, porque são sobretudo as pessoas que fazem os momentos. O que interessa é dançar esta música a dois. E o amor é como andar de bicicleta.

Há quem diga que nos tornamos mais “promíscuos”?
O Sol e as férias trazem o desejo e a vontade, estimulam o olhar para o exterior e despimo-nos de papéis burocratizados. Neste sentido, as pessoas estão mais abertas a iniciar novas relações, a encontrarem novas amizades, a sentirem-se atraídas pela novidade. Mas chamaria a isso a “boa promiscuidade”. Neste impulso para o mexerico dos afectos, as “antigas” relações podem parecer um peso, mas uma relação baseada sobretudo no companheirismo poderá beneficiar apimentando-se com a “boa promiscuidade” do Verão. A paixão renova-se com o desejo e com a insegurança, com o sair da toca e estar aberto a experiências, a sensações, à novidade. E tudo isso pode ser vivido dentro de uma relação já existente. Por isso, a sugestão é mesmo serem infiéis à rotina, ao aborrecimento, ao desentendimento, à repetição.

Mas há aventuras que deixam marcas que custam a passar…
Do mesmo modo que o bronze, aquela cor fantástica da pele, vai passando com o tempo, também as aventuras de Verão vão desaparecendo, quer na intensidade das emoções, quer por trazerem o desencanto ou a desilusão.
Podem sempre ficar boas marcas, quer pelas novas aventuras vividas, quer por nos rirmos dos desaires das férias. Mas se a expectativa era demasiado alta, se a idealização não corresponde de longe à realidade, se estamos presos ao mau humor ou se ficarmos fixados no tempo a suspirar pelo que partiu, pode ser difícil regressar das férias.

O que fazer?
A sugestão é esperar um pouco e ver se esse sentimento desagradável persiste. Entretanto procure relaxar e ir aumentando o ritmo gradualmente. As férias podem ser desgastantes. Depois, se continuar a ser desconfortável regressar à rotina, peça ajuda. O stress pós-férias pode ser um problema.

Que conselhos é que dá aos portugueses para aproveitarem de uma forma mais tranquila o Verão?
Quando estiverem na praia peguem num punhado de areia e sintam o toque agradável dos grãos. Deixem a areia escorrer lenta e suavemente, aproveitando o momento e sem o receio de que vão ficar sem nada na mão.
A ideia é aproveitar os momentos e saborear as boas sensações. Inventem como. Na esplanada, com os amigos, com saídas, em viagem… com mil e uma oportunidades, ou simplesmente com duas ou três. Tanto faz. Desde que seja.

Caixa de socorros psicológica para férias?
Nada como uma bolsa de primeiros socorros para pequenas mazelas emocionais ou contra picadas de pensamentos negativos.
Na mala deverá levar:
- Uns comprimidos para a má disposição e a irritação. Ir para férias já (ou ainda) irritado é começar com o pé esquerdo. A logística pode não ser fácil, mas há-de lá chegar. Tem tempo e pode aproveitar a viagem.
- Um balão de oxigénio para respirar melhor. Se o desconforto emocional já estiver na zona amarela, procure relaxar.
- Um repelente contra ruminações e intrusões de pensamentos automáticos desagradáveis.
- A toalha para se deitar na areia. Se tiver uma fadiga imensa logo no início das férias repare que o corpo está de “ressaca” do stress.
- Um protector solar para não se queimar na exposição a emoções muito intensas e prolongadas. Cuidado com os excessos.

Descomplicar os Afectos no Verão
Na Oficina de Psicologia é responsável por uma edição especial de Descomplicar os Afectos no Verão, que tem um claro sucesso. Os três grupos dos afectos descomplicados estão de parabéns pelos excelentes resultados nesta ambição de tornar as relações simples.
Na Oficina de Psicologia vamos lançar o 4.º grupo do D.A. no dia 23 de Setembro. Para saber mais informações ou para se inscreverem é simples: basta ir ao site www.oficinadepsicologia.com e clicar no Descomplicar os Afectos.

Hugo de Oliveira Santos
Psicólogo Clínico - Psicoterapeuta
Oficina de Psicologia - Psicoterapia para todos
www.oficinadepsicologia.com